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 Poesia

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Kaluanda
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Out 13, 2008 6:53 pm

Alda Lara


Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque.
Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962.
Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prêmio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI).

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Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...

E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...

Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...


farao


Última edição por Kaluanda em Sex Out 17, 2008 8:12 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Out 15, 2008 7:23 pm

Ernesto Lara Filho

Biografia
Nasceu em Benguela no ano de 1922. Foi para Portugal, a fim de continuar os seus estudos, concluindo o curso de regente agrícola, na Escola Nacional de Coimbra. Percorreu alguns países da Europa, ganhando a vida, por vezes, como empregado de restaurante. Considerado o primeiro grande cronista de Angola. Morreu em 1977, 17 anos após sua irmã, a poetisa Alda Lara.

Obra poética:
Picada de Marimbondo, 1961, Nova Lisboa, Publicações Bailundo;
O Canto de Martrindinde e Outros Poemas Feitos no Puto, 1964, Lisboa, e. a.;
Seripipi na gaiola, 1970, Luanda, ABC;
O Canto de Martrindinde (inclui as três obras anteriores) , 1974, Lobito, Cadernos Capricórnio.

Caminhos de musseques
Caminhos dos musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tetos de zinco.

Caminhos antigos.
Caminhos antigos como o Mundo.

A cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caiu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.

onde a esteira cobre o chão varrido todas as manhãs

onde a fuba substitui todas as claridades

onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.
Caminhos antigos
onde a eletricidade começa a fazer circular
“idéias estrangeiras”
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam passarinhos.
As fendas, os muros, os tetos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.
Nas almas... um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.
Lá – caminhos da vida
Lá no mato. Lá no campo. Lá na floresta. Lá no estrangeiro.
Lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
A vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
Lá – no musseque – areais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos
dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?

(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)

farao
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Out 17, 2008 8:08 pm

ANGOLA


Esquece as facadas
De uma guerra animal
Ó dores danadas
De sangue ainda a correr,afinal


Ó Angola de sangue a correr
Em ti todo o apêgo
De um dia te ver
Com paz e sossego


Em ti sempre acredito
Nesta vida de mistério
Até mesmo que o meu partido
Seja o cemitério


Não vou fugir para terras estranhas
Angola do meu nascer
De tuas entranhas
Nasci também para viver


Meu sangue é teu eternamente
As ruas poderá banhar
Na fecundidade de tua mente,
Para tua paz ganhar


(Orlando de Sousa Castro)
(um amigo)


Segundo o Autor, existem razões devidamente fundamentadas, pelas quais não se limita pelas regras, habitualmente usadas na formação de uma poesia. Por exemplo: não se singiu à contagem métrica das sílabas.

Afaonil
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Out 19, 2008 10:45 pm

Ana Paula Tavares

Nascida na Huíla, sul de Angola, Poeta e historiadora. tendo obtido o grau de Mestre em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.


"A massambala cresce a olhos nus"

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.
Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.


farao
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Out 24, 2008 7:37 pm

Costa Andrade

Dádiva

Sou mais forte que o silêncio dos muxitos

mas sou igual ao silêncio dos muxitos

nas noites de luar e sem trovões.

Tenho o segredo dos capinzais

soltando ais

ao fogo das queimadas de setembro

tenho a carícia das folhas novas

cantando novas

que antecedem as chuvadas

tenho a sede das plantas e dos rios

quando frios

crestam o ramos das mulembas.

...e quando chega o canto das perdizes

e nas anharas revive a terra em cor

sinto em cada flor

nos seus matizes

que és tudo o que a vida me ofereceu.

farao
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Out 25, 2008 11:10 am

Gosto de poesia, mas me desculpem lá se estou a ser atrevido demais.
Todas são belas poesias de gente que sabe escrever, mas, tenho entrado em vários sites deste tipo que falam de Angola e das ex Colónias; deles depreendo ( não querendo ser estraga ), que: todos ou são, ou estão, ou venham a ser ou estar no acento da palavra escrita.- Nostálgicos!!!
Angola é festa!!!
Angola, já não é passado; Angola é presente e o "futuro" que nunca chega é o hoje. Por isso celebremos, festejemos, "riemos", tudo o que de bom for poesia, que seja sol, praia, e boas ondas. O resto.... é zero!

Kandandos!!!
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Out 25, 2008 1:06 pm

Oi Paulobocas

Já pecebi que gostas de "dar bocas"...
Mas se os poetas Angolanos, de uma maneira geral, são nostálgicos... fazer o quê???
Temos que nos governar com a "prata da casa"... eheheheh

Ou então, amigo, toca a escrever poesia...
Aceitam-se poetas... angolanos!!

Bjs.

farao
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Out 30, 2008 5:39 pm

Presença Africana

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...
Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

Alda Lara
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Nov 07, 2008 8:27 pm

Uma singela "Homenagem" à poetisa e membro do Kandando Angola, Isabel Branco

Isabel Branco, festeja hoje o seu Aniversário.

Para Isabel Branco em nome de todos os participantes do Kandando Angola, desejamos um Feliz Aniversário.Que este dia se repita por muitos e longos anos.De preferência na nossa companhia

Parabéns, Isabel Branco:flor:

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Nov 10, 2008 3:25 am

ZÉ MULEMBA (Alberto Telésforo Afonso)

Sobre este autor podemos dizer que nasceu em Luanda no ano de 1942, que concluiu o curso na Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro em 1962. Era figura conhecida no mundo dos rallyes automóveis. Foi director do Quilombo, uma estância agrícola paradisíaca situada em Ndalatando, província do Kwanza Norte. Saiu de Angola em 1975. Contudo não abandonou África tendo trabalhado na África do Sul, Moçambique, Suazilândia, Zâmbia, Quénia, Botswana e República do Zaire (ex-Congo Belga). Em 1992 rumou para Portugal onde veio a falecer em 2007. Mas enquanto recuperava da grave doença que o afectava foi “abrindo a gaveta dos seus tesouros para transmitir aos mais interessados a felicidade de conhecer África, o grandioso Continente, com a sua natureza única, tradições e cultura dos seus povos.”
O primeiro resultado foi a publicação de um pequeno livro de contos e poesia intitulado “KURIKUTELA – Nos caminhos de Angola” que foi publicado em Edição de Autor, conjuntamente com a “Atelier de Produção Editorial”, em 2006. São estórias acontecidas e poemas sentidos, escritos e descritos com muito humor e com muito amor pela terra mater, que nos fazem sorrir e que, por vezes, nos comovem.
No mesmo ano, pressentindo que o tempo não lhe sobrava, lançou um segundo e derradeiro livro a que deu o título de “PARLAMENTO SELVAGEM – A Anarquia dos Animais” também em Edição de Autor mas acompanhado, desta vez, pela “Edições Ecopy”. Tive o prazer de estar presente na ocasião do lançamento deste segundo trabalho do meu amigo ZÉ MULEMBA. Trata-se de uma fábula com muito simbolismo que espelha o mundo político dos nossos dias colocando os animais selvagens, através das suas características próprias, na pele dos homens.
Mas é na obra “KURIKUTELA – Nos Caminhos de Angola” que, na minha opinião, se pode ver a verdadeira alma do ZÉ MULEMBA. Desse livro deixo-vos um pequeno poema bem demonstrativo da sensibilidade do autor. Chama-se “Fula Maria” e foi escrito em 1968. Diz assim:

“Fula Maria
Filha do Soba Sapalo
Da sanzala Camilunga,
Nasceu, brincou, amou,
Junto à beira da estrada.
Zé Catraio
Satambinja da carrinha
Do siô Zé Miúdo,
Fazia adeus ao passar
Na sanzala Camilunga.
Fula Maria esperava
Sentada na árvore caída,
Que a carrinha encarnada
Aparecesse lá na curva,
Com Zé Catraio sentado
Em cima do saco de fuba.
E tanto tempo esperava,
Dia e noite sem cansar
Que o tuku-tuku aparecia
Trazendo pó e barulho.
Fula Maria acenava,
Fula Maria sorria.
E lá de cima emproado,
Zé Catraio faz banga
Com sua boina bonita
E cambriquite coçado.
Fula Maria acenava,
Fula Maria sorria.
E certo dia estreou,
Vestido novo encarnado
Com sapato de fivela,
Para ver Zé Catraio
Que nesse dia passava.
Mas seu coração bateu,
Quando Catraio não viu!
Satambinja era outro,
Que nem p’ra ela olhou.
Fula Maria gemeu,
Fula Maria chorou.”

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Nov 10, 2008 11:54 pm


António Jacinto


António Jacinto do Amaral Martins, nasceu no Golungo Alto, em 28 de Setembro de 1924. Conclui seus estudos licencias em Luanda, passando a trabalhar como funcionário de escritório. Destaca-se como poeta e contista da geração Mensagem e, em conseqüência de seus envolvimentos políticos, é preso no campo de concentração do Tarrafal, Cabo Verde, onde cumpriu pena de 1960 a 1972. Neste ano, foi transferido para Lisboa, em regime de liberdade condicional, onde exerceu a função de técnico em contabilidade. Fugiu em 1973 e foi integrar a luta pela independência de Angola, participando das frentes militantes do MPLA. Após a independência, foi Ministro da Cultura de 1975 a 1978. Morreu em 23 de Junho de 1991.

CARTA DE UM CONTRATADO

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio
de te perder
deste mais bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,

uma carta de confidências íntimas,
uma carta de lembranças de ti,
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que recordasse nossos tempos a capopa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo o Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor,
uma carta que ta levasse o vento que passa
uma carta que os cajús e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levassem puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor....

Eu queria escrever-te uma carta...
Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também


Poemas, 1961, Luanda

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Nov 11, 2008 1:04 am

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Nov 11, 2008 8:16 pm


António Cardoso
Nasceu a 8 de abril de 1933 em Luanda, onde fez os estudos liceais. Teve a sua estreia no boletim "Estudante" (órgão dos alunos do ex-liceu Salvador Correia) e na revista "Mensagem". Foi preso pela PIDE (polícia portuguesa) em 1959 e de novo em 1961, só sendo libertado a 1 de maio de 1974, depois de Ter passado cerca de três anos em cadeias de Luanda e aproximadamente dez no Campo de Concentração do Tarrafal, fato que marcou muito a sua obra. Após a independência, exerceu funções superiores na Rádio Nacional e na Secretaria de Estado da Cultura.

Canção desesperada

Vento que vais passar
Pelos loucos cabeços nus,
Que trazes para contar
Sobre a Noite ou sobre a Luz?


Sol que incendeias a terra
Toda nua e resignada,
Que nos trazes dessa guerra
Sem esperança desejada?

Lua, erma e abandonada
Nos confins do abandono,
Que trazes ,assim calada,
Para além de morte e sono?
- Jaz a terra de bruços
Não canta água na pedra:
Só se ouvem soluços
Da desgraça que medra...

(Nunca é velha a esperança)

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MensagemAssunto: Calema   Qui Nov 13, 2008 4:18 pm

calema


o teu marulho

se faz fogo

no rebentar furioso.


devastador te assumes

diabólico.


arvoro-me em quianda

e mergulho no abraço das ondas


abro te as entranhas

desfio a malha que te sustenta

manobro te os genes


e recrio-te brando.


em areia me transformo

para sentir

o cetim líquido

percorrer-me frio e manso.




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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Nov 13, 2008 8:09 pm

Olá amigo Admário!

Não percebi muito bem o seu poema!
Gosto mais de poesia suave...
que se entenda...
onde não dance algo agressivo...
Não consegui ver aí cetim...manso...
Provavelmente é ignorância minha!

Abraços.
Tita
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Nov 13, 2008 8:17 pm

ALDA LARA

Poemas que eu escrevi na areia I

Meu bergantim, onde vens,
que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...

Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de não me chegar ao fim.

Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
e esperam, presos ao Céu...

Que haverá p'ra além da noite?
p'ra além da noite de breu?

Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
e sacudir e beijar,
sem ondas mansas, cobrindo-o...

Quem dera viesses já...
que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
sem ver o que há para além
deste grande, imenso céu
e desta noite de breu...

Não quero morrer serena
em cada hora que passa
sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
apenas a noite escura,
e as aves negras, voando...

II

Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
que numa praia distante,
meu bergantim se afundou...

Meu bergantim foi-se ao mar!
levava beijos nas velas,
e nas arcas, ilusões,
que só a mim me ofereci...

Levava à popa, esculpido,
o perfil, leve e discreto,
daqueles que um dia perdi.

Levava mastros pintados,
bandeiras de todo o mundo,
e soldadinhos de chumbo
na coberta, perfilados.

Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!

.........................

E por sete luas cheias
No areal se chorou...
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MensagemAssunto: Re: Calema   Sex Nov 14, 2008 12:53 pm

Minha cara Tita,

O surrealismo tem destas coisas – uns amam, outros nem chegam a entender.

Mas sempre lhe digo que

ser poema à flor da pele

é mais do que provar

o sal pela rama
[...]

(“à flor da pele”, admário costa lindo, 29.04.2005)

Porém você conseguiu ver agressividade onde existe o seu contrário: o poema desmonta (precisamente) a agressividade da calema e transforma as águas em cetim líquido e manso, coisa que os humanos não conseguem sem a ajuda de uma quianda… talvez. Tão simples quanto isto.

Não digo que seja ignorância. Provavelmente será apenas falta de hábito ou uma incompatibilidade momentânea.

Vou esperar que entenda o “sabor da lua” e o “relincho das águas” … já de seguida.


Kandando grande do

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MensagemAssunto: o sabor da lua   Sex Nov 14, 2008 1:05 pm

o sabor da lua


à Adélia Clara
(no teu aniversário)


de manhã nasce o sol
ao secar do orvalho
ao sabor da lua.

como a fénix renascida –

porque o fogo
não é mais do que água sublimada

ao vigor da vida.


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MensagemAssunto: o futuro das águas   Sex Nov 14, 2008 1:10 pm

o futuro das águas



as águas passadas
moveram moinhos.

e pontes as viram
e sóis as marcaram
e o mar as bebeu.

ao futuro me vou
a esgravatar
o relincho das águas.


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Nov 15, 2008 2:25 pm

Olá amigo Admário!
Peço desculpa, mas em realidade nem me ocorreu que esse género literário que usa fosse surrealismo... Sobre ele li só o essencial... Portanto, neste caso, há alguma ignorância da minha parte...
Quero apresentar os meus parabéns pela sua veia que, nesta época, não será muito comum!!

Abraços.
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Nov 15, 2008 3:30 pm



EM UM OCASO MUDO

Me separa de ti a rosa de um crepúsculo
Oh! Se pudesse vir no dorso do vento
apenas uma núvem, uma ligeira núvem
e a mim descesse a aurora de teu gesto.

Porque não sorris inperceptivelmente!
Tão fácil é sorrir e ser feliz
a aurora é formosa, porque és a aurora
e a vida é tão dura sem a razão de ser.

Quero tecer grinaldas em teu colo desnudo
tecer subtis auras de carícias perdidas
despertar o intacto mistério dos teus beijos
e dormir em teu peito o sono da inocência.

Apenas nos separa uma sílaba breve
se por fim a arrancas como uma pétala viva
e em mim a jogas, oh! corola murcha
folha morta de sede, no espaço imenso.

Ah! não ilumines mais neste mudo ocaso
sem palavras, sem vida, sem amor e dor
que o anjo acompanhe o teu sorriso breve.
Me separa de ti a rosa de um crepúsculo.

Rui Garcia

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Nov 16, 2008 12:37 am

Poema a Benguela - Declamação de Olimpio C Neves

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Nov 16, 2008 11:56 pm



Olá Heliodoro!
Como Makulama colocou o poema que eu tinha escolhido, deixo aqui outro que também se refere à Mulemba...
Este poema, de alguma maneira, serve de comentário ao outro...
Bjs.


O AVISO DA MULEMBA


A mulemba era tudo
Naquele povoado de gente pioneira:
Apoio silente, confidente,
Desde papo sisudo
A conversa maneira.
Sob sua copa frondosa,
Rolavam em polvorosa
Conversas sobre kumbú
E negócios de vida amorosa,
Em que o tu era eu, e o eu virava tu.
Mas, um dia, as folhas caíram,
Secaram, e os ramos partiram,
De tanto que murcharam,
De tão secos que ficaram...
Era o prenúncio da má sorte,
Da morte,
Da guerra,
Da diáspora de brancos e negros "sem-terra".
Assim, foi o fim
Duma história de glória...

Lúcio Huambo

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Nov 17, 2008 1:09 pm

Lindo poema, Kaluanda. Parabéns pela escolha tão acertiva. É engraçado que não conhecia Lúcio Huambo. Vou investigar e ler mais os seus poemas.
Parece-me muito actual.

Beijos e Kandandos.

Heliodoro
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Nov 23, 2008 10:21 am


Serão de menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta de estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...
na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...
"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
.........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Tão tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça."
Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:
- Eué
- É casumbi...
E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitande-
a gente grande com gosto ri...
Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...

Viriato da Cruz

(No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Hoje à(s) 2:33 pm

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