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 Poesia

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Kaluanda
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Fev 02, 2009 9:22 pm

Paisagem

Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso,
Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato
Que evapora a verdura e que deleita o olfato,
Pelas alas sem fim da árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre folhas, abstrato
Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso
Escorrega de manso, escorrega de manso
Pelo claro cristal do límpido regato.

Nenhuma ave sequer, sobre a macia alfombra,
Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece
A campina, a rechã sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas
Selvas a dentro entrando, a noite desce, desce...
E espalham-se no céu camandulas de estrelas...

Francisca Júlia
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Fev 02, 2009 10:34 pm

Fímbria de Melancolia

Fímbria de melancolia,
memória incerta da dor,
ouço-a no gravador,
no fado que não se ouvia
quando ouvia o seu clamor.

Porque era já no passado
o presente dessa hora
e que me ressoa agora
a um outro mais alongado.

Assim a dor que se sente
no outro obscuro de nós
nunca fala a nossa voz
mas de quem de nós ausente,
só a nós próprios consente
quando não estamos nós
mas mais sós do que ao estar sós.

Onde então estamos nós?

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente'
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Fev 03, 2009 6:47 pm

Eu cantarei de amor tão docemente,

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia, e pena, ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e arte.

Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Fev 03, 2009 9:01 pm

Enquanto quis fortuna

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus versos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos!

Camões
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MensagemAssunto: Poesia   Ter Fev 03, 2009 11:03 pm

A Cantiga do Campo

Porque andas tu mal comigo
Ó minha doce trigueira
Quem me dera ser o trigo
Que andando pisas na eira

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas
Eu choro a ouvir-te as cantigas
que cantas nas noites claras

Por isso nada me medra
Ando curvado e sombrio
Quem me dera ser a pedra
em que tu lavas no rio

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Aquela casa onde coses
com varanda para o mar

(e)por isso nada me medra
ando curvado e sombrio
quem me dera ser a pedra
em que tu lavas no rio

Gomes Leal



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MensagemAssunto: Poesia   Ter Fev 03, 2009 11:19 pm

As Mãos

Com mãos se faz a paz e a guerra.
Com mãos tudo se faz e desfaz.
Com mãos se faz o poema-e são de terra.
Com mãos se faz a guerra-e são a paz.

Com mãos se rasga o mar.com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos.E estão no futuro e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
Nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre



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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Fev 04, 2009 10:49 pm

A um poeta

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Fev 06, 2009 1:50 pm

Tanto de meu estado

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num' hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um' hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Fev 06, 2009 11:02 pm

O MEU MAL

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, e caravela, e dor!

Fui tudo que no mundo há de maior,
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...

Fui a heráldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos aroma aos nardos...
Deu cor ao eloendro a minha boca...

Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha!
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!


Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Fev 08, 2009 6:53 pm


Com grandes esperanças

Com grandes esperanças já cantei
Com que os deuses no Olimpo conquistara;
Depois vim a chorar porque cantara,
E agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
Custa-me esta lembrança só tão cara,
Que a dor de ver as mágoas que passara,
Tenho por a mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
Dá causa que outro na alma se acrescente,
Já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?

Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Fev 12, 2009 6:37 pm

O cisne, quando sente ser chegada

O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música com voz alta e mui subida
Levanta pela praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando posto já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei pelos vossos desfavores
La vuestra falsa fé y el amor mio.

Luís de Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Fev 13, 2009 1:39 pm


Carta ao Mar

Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lyrico, choroso,
E terno visionario, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vae ter comtigo,
- Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu, - vasto e humido jazigo!

Nada é mais triste, tragico e profundo!
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!...
Mas tambem, quem te poude consollar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia! -
E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia;
- A Musica é mais triste inda que o Mar!

António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Fev 14, 2009 1:28 pm


NOITE DE SAUDADE

A noite vem pousando sobre a Terra,
que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
a quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu ouço a noite imens soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Porque és assim tão escura assim tão triste?!
É que talvez, ó noite em ti existe
uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti ó noite!... Ou de ninguém!...
Que nunca sei quem sou, ou o que tenho!!


Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Fev 16, 2009 12:44 am

Em Flor vos arrancou

Em flor vos arrancou, de então crescida,
(Ah Senhor Dom António!) a dura sorte
Donde fazendo andava o braço forte
A fama dos antigos esquecida.

Uma só razão tenho conhecida
Com que tamanha mágoa se conforte:
Que se no Mundo havia honrada morte,
Não podíeis vós ter mais larga vida.

Se meus humildes versos podem tanto
Que co'o desejo meu se iguale a arte,
Especial matéria me sereis.

E celebrado em triste e longo canto,
Se morrestes nas mãos do fero Marte,
Na memória das gentes vivereis.

Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Fev 17, 2009 7:34 pm

Fado português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Fev 18, 2009 5:24 am

amiga kaluanda
para onde foram os outros poetas amigos da amiga
os seus poemas sao lindos mas eu tambem gostava dos poemas do amigo paulo e lopes
nunca mais lhes vi por aqui
devem estar doentes e com falta de inspiracao
fado e tristeza e nostalgia nao gosto
continue e fique bem :fruto 3:
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MensagemAssunto: Poesia   Qua Fev 18, 2009 11:54 pm

Eu


eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por dentro não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha


Paulo Leminski


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MensagemAssunto: Poesia   Qui Fev 19, 2009 12:08 am

Amor de fixação


Há um caminho marítimo no meu gostar de ti;
Há um Porto por achar no verbo amar.
há um demandar num longe que é aqui.
É o meu gostar de ti é este amar

Há um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti.Há um saber pela experiência
o que em muitos é um só enfabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência

que é eu gostar de ti como um buscar
as indias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar);


mares a voltar no meu gostar de ti;
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi


Manuel Alegre
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MensagemAssunto: Poesia   Qui Fev 19, 2009 12:30 am

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto,é ser maior
Do que os homens!Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor,
E não saber sequer que se deseja.
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de Condor!

É ter fome,é ter sede de infinito!
Por elmo,as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te,assim,perdidamente...
É seres alma e sangue,a vida em mim
É dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Fev 19, 2009 4:45 pm

Canto interior de uma noite fantástica

Sereno, mas resoluto
aqui estou – eu mesmo! – gritando desvairado
que há um fim por que luto
e me impede de passar ao outro lado

Ante esta passagem de nível
nada de fáceis transposições
Do lado de cá – pareça embora incrível
é que me meço: princípio e fim das multidões

Não quero tudo quanto me prometam aliciantes
Nada quero, se para mim nada peço,
o meu desejar é outro – o meu desejo é antes
o desejo dos muitos com que me pareço

Quem quiser que venha comigo
nesta jornada terrena, humana e sincera
E se for só – ainda assim prossigo
num mar de tumulto impelido os remos sem galera

Que venham glaucas ondas em voragem
que ardam fogos infernais
que até os répteis soltem seus instintos
e me envolvam traiçoeiras e viscosos

Que me derrubem e arremessem ao chão
que espezinhem meu corpo já cansado
à tortura e ao chicote ainda responderei não
e a cada queda – de novo serei alevantado

E não transporei a linha divisória
entre o meu e o outro caminho
Mesmo que a minha luta não tenha glória
é no campo de combate que alinho

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!
num perigoso mar de paixões e escolhos
e – companheiros – se neste sofrer me virdes chorar
não acrediteis em vossos olhos!


António Jacinto (Poemas)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Fev 19, 2009 10:05 pm

Doces lembranças

Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.


Impressa tenho na alma larga história
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara: mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

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MensagemAssunto: Poesia   Sex Fev 20, 2009 1:01 am

Enquanto outros combatem

Empunha-se eu a espada dos valentes
Impelisse-me a acção,embriagado,
Por esses campos onde a Morte e o Fado
Dão a lei aos reis trémulos e às gentes!


Respirariam meus pulmões contentes
O ar de fogo do circo ensanguentado...
Ou cahira radioso,amortalhado
Na fulva luz dos gladios reluzentes!


Já não veria dissipar-se a aurora
De meus inuteis annos,sem uma hora
Viver mais que de sonhos a anciedade!


já não veria em minhas mãos piedosas
Desfolhar-se,uma a uma,as tristes rosas
D´esta pálida e esteril mocidade


Antero de Quental


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Fev 20, 2009 12:10 pm


Balada

Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
Também por um instante nesse dia
Em que tão docemente me disseste
Que amavas ‘ma mulher que o não sabia.

Amei-te muito, muito!Tão risonho
Aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
Deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
Da quimera bebi aquele dia
A tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
………………………………
E como o rei de Thule da balada
Deitei também a minha taça ao mar …


Forbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Fev 20, 2009 12:38 pm


O Meu Soneto


Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...

E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d´amor trazem de rastros...

E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Fev 21, 2009 12:05 am

Onde acharei lugar tão apartado

Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.

Luís de Camões
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MensagemAssunto: Poesia   Sab Fev 21, 2009 12:15 am

AMOR VIVO


Amar!mas d´um amor que tenha vida
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
D´uma douda cabeça enscandecida..

Amor que vive e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser- e não só beijos
Dados no ar- delirios e desejos -
Mas amor...dos amores que têm vida...

Sim,vivo e quente!e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra débeis amores...se têm vida?

Antero de Quental



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