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 Poesia

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lopes
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Maio 15, 2009 11:58 pm

Sou o fantasma de um rei


Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim,fumo de eu pensá-la,morre
A ideia de que tive algum passado...

Eu não sei o que sou.
Não sei se sou sonho
Que,alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de um rei tristonho
Numa história que um deus está relendo.

Fernando Pessoa
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Maio 16, 2009 12:04 am

D.Debastião,Rei de Portugal

Louco,sim,louco,porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá:
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve,não o que há.

Minha loucura,outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria.

Fernando Pessoa em Mensagem

Toni Lopes... study
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Maio 17, 2009 9:37 pm

Dança do vento

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!



Afonso Lopes Vieira
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Maio 19, 2009 7:21 pm

Campinas

Hoje fez lindo dia nas Campinas:
Um Sol que não se via há muitos anos;
Suave brisa vinda de oceanos;
Harmonia nas ruas, nas esquinas.

No caloroso céu, só nuvens finas,
Aves brincavam de voar, sem danos;
Cá na terra, trazia novos planos
A alegria em meninos e em meninas.

Restava uma fração pra ser completa
A beleza que vinha ao coração;
Faltava o teu afecto, a minha meta.

Mas nem causava dor tal sensação,
Pois eu cantava amor, na estrada recta,
Rumo ao fim de mais um dia-canção.

Bernardo Trancoso
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Maio 20, 2009 1:24 pm

Perdigão perdeu a pena

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Luís de Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Maio 23, 2009 6:36 pm

Ir além

Eu desejo ir além do sul, do norte;
Chegar ao lado oposto do horizonte;
Atravessar o mar, cruzar a ponte;
Na vida, ter um pouco mais de sorte.

Quero seguir o sol, também, ser forte;
Tocar o céu, subir em qualquer monte;
Beijar um arco-íris, bem na fronte;
Cantar, que é pra poder fugir da morte.

Viajar, conhecer toda a beleza...
Num destino poético, constante,
Traduzir em meu canto a natureza.

Evitar a tristeza, irrelevante
Mas, se ela me encontrar vou, com certeza,
Manter viva a esperança e ir adiante.

Bernardo Trancoso
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Maio 25, 2009 12:11 am

Merina

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia,
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

Cesário Verde
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Maio 25, 2009 12:23 am

No Turbilhão

No meu rosto desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...

Num espiral de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar,em grupos novolutos,
Distingo-lhes,a espaços,as feições...

-Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós,meus irmãos e meus algozes?
Quem sois,visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim!ai de mim!e quem sou eu?!

Antero de Quental

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Maio 26, 2009 12:41 pm

A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa de ave ferida –
De vale em vale impelida,
A vida o vento a levou!

João de Deus
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Maio 26, 2009 11:58 pm

Espuma
Mais leve que a pluma
que no ar balança,
pela praia dança
a ligeira espuma.
Dançando se afaga
no alado bailar!
Pétalas de vaga, poeiras do mar...
E na dança etérea,
que imparável ronda!
Bafo de matéria,
penugem da onda.

Afonso lopes vieira

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Maio 28, 2009 6:47 pm

África mãe Zungueira



Esta que se aproxima

carrega uma criança às costas e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

Conhece bem demais a cidade

não tanto pelos monumentos
mas pela necessidadeviandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mulher é aquela que não de deixa
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes

Lá vai mais uma dobrando a esquina

de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol

nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor

Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo

veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descobertarainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autentico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara odeia a sinceridade do espelho

Por aqui passou mais uma profissional da zunga

protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

In consulado do Vazio (Gociante Patissa)

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Maio 30, 2009 12:23 am

Poema que aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Maio 30, 2009 12:31 am

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça,
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira,no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem(e matam)
a cada instante de amor

Carlos Drummond de Andrade

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 02, 2009 6:39 pm

O Andaime

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos, o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 04, 2009 1:11 am

Onde mereci eu tal pensamento

Onde mereci eu tal pensamento
nunca de ver humano merecido?
Onde mereci eu ficar vencido
de quem tanto me honrou o movimento?

Em glória se converte o meu tormento,
Quando vendo-me estou tão bem perdido;
Pois não foi tanto mal ser atrevido,
Como foi glória o mesmo atrevimento.

Vivo,senhora,só de contemplar-vos;
e pois esta alma tenho tão rendida,
em lágrimas desfeito acabarei.

Porque não me farão deixar de amar-vos
receios de perder por vós a vida
que por vós vezes mil a perderei.

Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 04, 2009 1:20 am

GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DE VENTURA

Grão tempo há já que soube de ventura
a vida que me tinha destinada;
que a longa experiência da passada,
me dava claro indício da futura.

Amor fero,cruel,Fortuna dura,
bem tendes vossa força experimentada;
Assolai,destruí,não fique nada;
vingai-vos desta vida que inda dura.

Soube amor da Ventura que a não tinha;
e,porque mais sentisse a falta dela,
de imagens impossíveis me mantinha.

Mas Vós,Senhora,pois que minha estrela
não foi melhor,vivei nesta alma minha,
que não tem a Fortuna poder nela.

Camões


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 04, 2009 2:27 am

Quiproquó

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar nos lavabos,
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno(tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicídio do poeta

Senhor,senhor,que digo eu(?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto

Arménio Vieira (Poeta de Cabo Verde)
GALARDOADO COM O PRÉMIO CAMÕES 2009

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 04, 2009 5:44 pm

HOMENAGEANDO O POETA GALARDOADO...


Mar! Mar!

Mar! Mar!

Quem sentiu o mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Silêncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!

do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?


Arménio Vieira (1962)
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MensagemAssunto: ã   Sex Jun 05, 2009 12:39 am

E continuando a homenagear o escritor e poeta

LISBOA 1971

Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
A Ovídio Martins e Osvaldo Osório

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões na Portela.

Em verdade éramos o gado mais pobre
d´África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos parâmetros de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber donde e ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do império.

Porém o desencanto que desce o peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos de inverno.

Arménio Adroado Vieira e Silva.

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jun 06, 2009 1:37 pm

SE...?

Se não houvesse
mar, nem vento,
nem flor, nem planta,
nem lar, nem gente?

E tudo o que é
deixasse de ser:
o dia e a noite,
o macho e a fêmea,
a dor e o gozo.

E as estrelas fossem
palavras sem nexo
e o tempo vazio
de vozes e gritos

Haveria Deus,
sem mais,
amando coisa nenhuma,
para si mesmo
sábio e santo.

Sonhador solitário,
sonhando que sonho?
Sem mundo, só Ele,
redondo como um zero.


(ARMÉNIO VIEIRA)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jun 07, 2009 7:23 pm

Aos Poetas

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

Miguel Torga, in 'Odes'
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jun 08, 2009 11:52 pm

A Criança

Que tens criança?O areal da estrada
Luzente a cintilar
Parece a folha ardente de uma espada.
Tine o sol nas savanas.Morno é o vento.
À sombra do palmar
O lavrador se inclina sonolento

É triste ver uma alvorada em sombras,
Uma ave sem cantar,
O veado estendido nas alfombras.
Mocidade,és a aurora da existência.
Canta, criança,és a ave da inocência.

Tu choras porque um ramo de baunilha
Não pudeste colher,
Ou pela flor gentil da granadilha?
Dou-te um ninho,uma flor,dou-te uma palma,
Para em teus lábios ver
O riso-a estrela do horizonte da alma.

Não.Perdeste a tua mãe do fero açoite
Dos seus algozes vis.
E vagas tonto a tatear à noite.
Choras antes de rir...Pobre criança!...
Que queres infeliz?...
-Amigo,eu quero o ferro da vingança.

Castro Alves
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jun 08, 2009 11:59 pm

Frades

Mas a mão que assim tece o linho aos pés da Glória?
Como Hércules também esmaga a hidra...
E depois de aspergir o túmulo dos heróis
Pega de Juvenal na vergasta feroz
E os monges hodiernos açoita sem piedade
Como o Divino Mestre o fez na antiguidade!...

Castro Alves

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 09, 2009 4:52 pm

Do mesmo autor, Castro Alves, um lindo poema...


AS DUAS FLORES

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo, no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 10, 2009 1:09 am

A MÃE E O FILHO MORTO

A pobre mãe cuidava
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertava.
O coração que batia
Era o dela,e não do filho,
Que já do sono da morte
Havia instantes dormia.
Olhei,e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha,sem o saber,
Nos braços o filho morto!

Rezava,e do fundo d´alma!
Enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfria.
Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus!- que dor expressou!
-Pensei então:a mulher,
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração,
Basta que possa dizer:
"Tive um filhinho ,Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!...

Bulhão Pato

Toni Lopes
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 10, 2009 7:30 pm



ARREPIAM-ME AS LEMBRANÇAS

Arrepiam-me as lembranças
Das manhãs descalças...
De um corpo fino
De um bibe com alças:
Memórias de um tempo menino

Sou alérgico às memórias ingratas!
Clarabóias deixam passar luz,
Que derrete o gelo indeciso
Por onde passou um tempo preciso,
Das coisas belas e gratas.

Sou um vestígio dos umbrais
Que sustêm o peso dos meus sonhos.
Tento viajar com os olhos cerrados
Por um campo milho verde
Com bandeiras a tocarem o céu...

Vou jejuar!

Não comerei os figos
Bicados pelos gaios...
Procuro na horta os abrigos
Onde a distância dos Maios,
Dissipam as canas dos trigos...

Toquei na colmeia por querer!
Sou um sopro de saudade
Favo de mel com a minha idade
Picado de abelhas ao alvorecer...

Cheguei ao fim dos silêncios
Onde as memórias são silenciosas.
E os silêncios para contemplar...

Quem vos disse
Que tinha que atalhar os caminhos
Na horta adulta...
Se me resta um pedaço de água pura
E um púcaro vazio para a apanhar...


(ROMASI)
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