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Kaluanda Top 500

 | Assunto: Re: Poesia Sab Maio 23, 2009 4:36 pm | |
| Ir além
Eu desejo ir além do sul, do norte; Chegar ao lado oposto do horizonte; Atravessar o mar, cruzar a ponte; Na vida, ter um pouco mais de sorte.
Quero seguir o sol, também, ser forte; Tocar o céu, subir em qualquer monte; Beijar um arco-íris, bem na fronte; Cantar, que é pra poder fugir da morte.
Viajar, conhecer toda a beleza... Num destino poético, constante, Traduzir em meu canto a natureza.
Evitar a tristeza, irrelevante Mas, se ela me encontrar vou, com certeza, Manter viva a esperança e ir adiante.
Bernardo Trancoso |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Dom Maio 24, 2009 10:11 pm | |
| Merina
Rosto comprido, airosa, angelical, macia, Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada, Mais alva que o luar de inverno que me esfria, Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria, Com seu passinho curto e em suas lãs forrada, Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia, De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.
Cesário Verde |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Dom Maio 24, 2009 10:23 pm | |
| No Turbilhão No meu rosto desfilam as visões, Espectros dos meus próprios pensamentos, Como um bando levado pelos ventos, Arrebatado em vastos turbilhões... Num espiral de estranhas contorções, E donde saem gritos e lamentos, Vejo-os passar,em grupos novolutos, Distingo-lhes,a espaços,as feições... -Fantasmas de mim mesmo e da minha alma, Que me fitais com formidável calma, Levados na onda turva do escarcéu, Quem sois vós,meus irmãos e meus algozes? Quem sois,visões misérrimas e atrozes? Ai de mim!ai de mim!e quem sou eu?! Antero de Quental Kandandos Toni Lopes  |
|  | | Ritinha Top 20


 Idade: 56 Localização: Golegã bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Ter Maio 26, 2009 10:41 am | |
| A Vida
A vida é o dia de hoje, A vida é ai que mal soa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que voa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvai: A vida dura um momento, Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cai! A vida é flor na corrente, A vida é sopro suave, A vida é estrela cadente, Voa mais leve que a ave; Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares, Uma após outra lançou, A vida – pena caída Da asa de ave ferida – De vale em vale impelida, A vida o vento a levou!
João de Deus |
|  | | Cazimar Adm/Moderação


 Idade: 57 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Ter Maio 26, 2009 9:58 pm | |
| Espuma Mais leve que a pluma que no ar balança, pela praia dança a ligeira espuma. Dançando se afaga no alado bailar! Pétalas de vaga, poeiras do mar... E na dança etérea, que imparável ronda! Bafo de matéria, penugem da onda. Afonso lopes vieira |
|  | | Cazimar Adm/Moderação


 Idade: 57 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | |  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Sex Maio 29, 2009 10:23 pm | |
| Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo nenhum problema nesta vida o mundo parou de repente os homens ficaram calados domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema não sabe o que está escrevendo mas é possível que se soubesse nem ligasse.
Carlos Drummond de Andrade |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Sex Maio 29, 2009 10:31 pm | |
| As sem-razões do amor Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça, e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira,no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem(e matam) a cada instante de amor Carlos Drummond de Andrade Toni Lopes  |
|  | | Kaluanda Top 500


 Idade: 63 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Ter Jun 02, 2009 4:39 pm | |
| O Andaime O tempo que eu hei sonhado Quantos anos foi de vida! Ah, quanto do meu passado Foi só a vida mentida De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio Sossego sem ter razão. Este seu correr vazio Figura, anónimo e frio, A vida vivida em vão.
A ‘sp’rança que pouco alcança! Que desejo vale o ensejo? E uma bola de criança Sobre mais que minha ‘s’prança, Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves Que não sois ondas sequer, Horas, dias, anos, breves Passam — verduras ou neves Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha. Sou mais velho do que sou. A ilusão, que me mantinha, Só no palco era rainha: Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas, Gulosas da margem ida, Que lembranças sonolentas De esperanças nevoentas! Que sonhos, o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me Quando estava já perdido. Impaciente deixei-me Como a um louco que teime No que lhe foi desmentido.
Som morto das águas mansas Que correm por ter que ser, Leva não só lembranças — Mortas, porque hão de morrer.
Sou já o morto futuro. Só um sonho me liga a mim — O sonho atrasado e obscuro Do que eu devera ser — muro Do meu deserto jardim.
Ondas passadas, levai-me Para o alvido do mar! Ao que não serei legai-me, Que cerquei com um andaime A casa por fabricar.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Qua Jun 03, 2009 11:11 pm | |
| Onde mereci eu tal pensamento
Onde mereci eu tal pensamento nunca de ver humano merecido? Onde mereci eu ficar vencido de quem tanto me honrou o movimento?
Em glória se converte o meu tormento, Quando vendo-me estou tão bem perdido; Pois não foi tanto mal ser atrevido, Como foi glória o mesmo atrevimento.
Vivo,senhora,só de contemplar-vos; e pois esta alma tenho tão rendida, em lágrimas desfeito acabarei.
Porque não me farão deixar de amar-vos receios de perder por vós a vida que por vós vezes mil a perderei.
Camões |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Qua Jun 03, 2009 11:20 pm | |
| GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DE VENTURA Grão tempo há já que soube de ventura a vida que me tinha destinada; que a longa experiência da passada, me dava claro indício da futura. Amor fero,cruel,Fortuna dura, bem tendes vossa força experimentada; Assolai,destruí,não fique nada; vingai-vos desta vida que inda dura. Soube amor da Ventura que a não tinha; e,porque mais sentisse a falta dela, de imagens impossíveis me mantinha. Mas Vós,Senhora,pois que minha estrela não foi melhor,vivei nesta alma minha, que não tem a Fortuna poder nela. Camões Toni Lopes  |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Qui Jun 04, 2009 12:27 am | |
| Quiproquó Há uma torneira sempre a dar horas há um relógio a pingar nos lavabos, há um candelabro que morde na isca há um descalabro de peixe no tecto Há um boticário pronto para a guerra há um soldado vendendo remédios há um veneno(tão mau) que não mata há um antídoto para o suicídio do poeta Senhor,senhor,que digo eu(?) que ando vestido pelo avesso e furto chapéu e roubo sapatos e sigo descalço e vou descoberto Arménio Vieira (Poeta de Cabo Verde) GALARDOADO COM O PRÉMIO CAMÕES 2009 Toni Lopes...  |
|  | | Kaluanda Top 500


 Idade: 63 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Qui Jun 04, 2009 3:44 pm | |
| HOMENAGEANDO O POETA GALARDOADO...
Mar! Mar!
Mar! Mar!
Quem sentiu o mar?
Não o mar azul de caravelas ao largo e marinheiros valentes
Não o mar de todos os ruídos de ondas que estalam na praia
Não o mar salgado dos pássaros marinhos de conchas areias e algas do mar
Mar!
Raiva-angústia de revolta contida
Mar!
Silêncio-espuma de lábios sangrados e dentes partidos
Mar!
do não-repartido e do sonho afrontado
Mar!
Quem sentiu mar?
Arménio Vieira (1962) |
|  | | lopes Moderador


 Idade: 65 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: ã Qui Jun 04, 2009 10:39 pm | |
| E continuando a homenagear o escritor e poeta LISBOA 1971 Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar. A Ovídio Martins e Osvaldo Osório Eis-nos enfim transidos e quase perdidos no meio de guardas e aviões na Portela. Em verdade éramos o gado mais pobre d´África trazido àquele lugar e como folhas varridas pela vassoura do vento nossos parâmetros de presunção e de casta. E quando mais tarde surpreendemos o espanto da mulher que vendia maçãs e queria saber donde e ao que vínhamos descobrimos o logro a circular no coração do império. Porém o desencanto que desce o peito e trepa a montanha, necessita da levedura que o tempo fornece. E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera, fomos seguindo nosso destino naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos de inverno. Arménio Adroado Vieira e Silva. Toni Lopes  |
|  | | Tita Top 100

 Idade: 62 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Sab Jun 06, 2009 11:37 am | |
| SE...?
Se não houvesse mar, nem vento, nem flor, nem planta, nem lar, nem gente?
E tudo o que é deixasse de ser: o dia e a noite, o macho e a fêmea, a dor e o gozo.
E as estrelas fossem palavras sem nexo e o tempo vazio de vozes e gritos
Haveria Deus, sem mais, amando coisa nenhuma, para si mesmo sábio e santo.
Sonhador solitário, sonhando que sonho? Sem mundo, só Ele, redondo como um zero.
(ARMÉNIO VIEIRA) |
|  | | Kaluanda Top 500


 Idade: 63 Localização: Portugal bandeiras dos países:  Reputação do usuário:
 | Assunto: Re: Poesia Dom Jun 07, 2009 5:23 pm | |
| Aos Poetas
Somos nós As humanas cigarras. Nós, Desde o tempo de Esopo conhecidos... Nós, Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas Da fábula burguesa da formiga. Nós, a tribo faminta de ciganos Que se abriga Ao luar. Nós, que nunca passamos, A passar...
Somos nós, e só nós podemos ter Asas sonoras. Asas que em certas horas Palpitam. Asas que morrem, mas que ressuscitam Da sepultura. E que da planura Da seara Erguem a um campo de maior altura A mão que só altura semeara.
Por isso a vós, Poetas, eu levanto A taça fraternal deste meu canto, E bebo em vossa honra o doce vinho Da amizade e da paz. Vinho que não é meu, Mas sim do mosto que a beleza traz.
E vos digo e conjuro que canteis. Que sejais menestréis Duma gesta de amor universal. Duma epopeia que não tenha reis, Mas homens de tamanho natural.
Homens de toda a terra sem fronteiras. De todos os feitios e maneiras, Da cor que o sol lhes deu à flor da pele. Crias de Adão e Eva verdadeiras. Homens da torre de Babel.
Homens do dia-a-dia Que levantem paredes de ilusão. Homens de pés no chão, Que se calcem de sonho e de poesia Pela graça infantil da vossa mão.
Miguel Torga, in 'Odes' |
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