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 Poesia

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Kaluanda
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 10, 2009 7:30 pm



ARREPIAM-ME AS LEMBRANÇAS

Arrepiam-me as lembranças
Das manhãs descalças...
De um corpo fino
De um bibe com alças:
Memórias de um tempo menino

Sou alérgico às memórias ingratas!
Clarabóias deixam passar luz,
Que derrete o gelo indeciso
Por onde passou um tempo preciso,
Das coisas belas e gratas.

Sou um vestígio dos umbrais
Que sustêm o peso dos meus sonhos.
Tento viajar com os olhos cerrados
Por um campo milho verde
Com bandeiras a tocarem o céu...

Vou jejuar!

Não comerei os figos
Bicados pelos gaios...
Procuro na horta os abrigos
Onde a distância dos Maios,
Dissipam as canas dos trigos...

Toquei na colmeia por querer!
Sou um sopro de saudade
Favo de mel com a minha idade
Picado de abelhas ao alvorecer...

Cheguei ao fim dos silêncios
Onde as memórias são silenciosas.
E os silêncios para contemplar...

Quem vos disse
Que tinha que atalhar os caminhos
Na horta adulta...
Se me resta um pedaço de água pura
E um púcaro vazio para a apanhar...


(ROMASI)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 11, 2009 1:18 am

Retrato Talvez Saudoso
da Menina Insular


Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
Países antecediam.

E quando seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

NATÁLIA CORREIA
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 11, 2009 1:28 am

Nictofagia

Se eu pudesse beber-te ,ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume
De quem és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume,
Fosse um sonho de chão a tecê-las.

E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo.

Me estendesses ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de Junho!

NATÁLIA CORREIA

Toni Lopes
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Jun 12, 2009 6:45 pm


Hoje nem sei cegar

Hoje nem sei cegar
Os tristes olhos da minha alma.
Sou um manuscrito cor devorada,
Que a alvorada não acalma.
Só lágrimas mimam o nada:
Lágrimas! Só sei chorar!

Hoje nem sei andar...
Sou um farrapo e já fui fada...
Sou um navio sem timoneiro.
Sou barca de proa encalhada...

Marinheiro!
Rema meus olhos de mar...

Hoje nem sei afogar
Os meus olhos manda-chuva.
Canto este sofrimento cansado!
Maré que vai cheia, sem chuva,
Lava o meu sorriso molhado!
Hoje nem sei versejar...

(ROMASI)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jun 13, 2009 1:48 am

Soneto

Em escura botica encantoados,
Ao som da grossa chuva que caía,
Passavam de Janeiro um triste dia
Dois gingas no gamão encarniçados;

"Corra,vizinho,corra-me esses dados"
Gritava um deles que nem bóia via;
De sempre frio o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados;

Dez vezes falha o mísero antiquário;
E ardendo em fúria o trémulo velhinho,
Atira cuma tábula ao contrário;

O mal seguro golpe erra o caminho,
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu no tal joguinho.

Nicolau Tolentino

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jun 14, 2009 12:55 am

Algumas quadras (sobre si próprio) do poeta António Aleixo

Fui policia,fui soldado,
Estive fora da Nação
Vendo jogo,guardo gado,
Só me falta ser ladrão!...

Resposta a algumas provocações......

Não sou esperto nem bruto
Nem bem nem mal educado;
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.


Sobre a sua forma miserável de se vestir...

Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço
Que sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.

ANTÓNIO ALEIXO

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jun 14, 2009 11:29 pm

Abril

Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco,sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras as curvas mais distantes
onde a voz dos ciganos se perdia.

Eugénio de Andrade
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jun 14, 2009 11:36 pm

Urgentemente

É urgente o Amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio,solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos,as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura,até doer.
É urgente o amor,é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jun 15, 2009 10:46 pm

A GRAÇA

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e púrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...


Alexandre Herculano
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 16, 2009 1:23 am

EXAUSTO

Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
e graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 16, 2009 1:28 am

O QUE A MUSA ETERNA CANTA

Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
"Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros."
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as mal-traçadas linhas.


Adélia Luzia Prado Freitas.


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 16, 2009 2:47 pm

FEITIÇO DO TAMBOR



Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.

Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.

Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus ímpetos carnais.

O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuído de magia!

A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais terá fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!

Geraldo Bessa Victor
(Poeta angolano)

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 16, 2009 2:49 pm

Sanzala Abandonada



Na sanzala abandonada
Já não moram gargalhadas
E há silêncio no lugar
Das antigas batucadas
A tristeza está sozinha
Na sanzala abandonada.

E lá vão grupos imensos
De inocentes desterrados
Levam quindas á cabeça
E candengues assustados.
Nada sabem do futuro
Que lhes foge tão depressa
E o passado ficou todo
Na sanzala abandonada.

Na sanzala abandonada
O capim cresceu à toa
Já tomou conta das lavras
Ficou dono das cubatas
Com ele se apaga o nome
Da sanzala abandonada.

Os que fogem escorraçados
Sem qualquer explicação
Ao perderem a identidade
Já nem sabem o que são.
Famintos e moribundos
Que entre medos se consomem
Mostram aos olhos do mundo
O que o homem faz ao homem.

“Entre Duas Margens” de Rui Manuel (Cuca), SeteCaminhos

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 17, 2009 12:31 am

O Macaco declamando

Um mono vendo-se um dia
Entre brutal multidão,
Dizem que lhe deu na cabeça
Fazer uma petição.

Creio que seria o tema
Indigno de se tratar;
Mas isto pouco importava,
Porque o ponto era gritar.

Teve mil vivas,mil palmas,
Proferindo à boca cheia
Sentenças de quinze arrobas,
Palavras de légua e meia.

Isto acontece ao poeta,
Orador e outros que tais;
Néscios o que entendem menos
É o que celebram mais.

BOCAGE
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 17, 2009 12:44 am

O Céu de opacas sombras abafado

O Céu,de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas,que saltea,
O mar,em crespos montes levantado;

Desfeito em furacões e vento irado,
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno,que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;

Formam quadro terrível,mas aceito,
Mas grato aos olhos meus,grato à fereza
Do ciúme e saudade,a que ande afeito.

Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão,que no meu peito
Há mais escuridade,há mais tristeza.
BOCAGE

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 17, 2009 4:37 pm

Já Bocage não sou...

Já Bocage não sou!...À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura:

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria;

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade.


Bocage
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 17, 2009 11:49 pm

Moradoras gentis e delicadas

Moradoras gentis e delicadas
do claro e áureo Tejo,que metidas
estais em suas grutas escondidas,
e com doce repouso sossegadas.

Agora estais de amores inflamados,
nos cristalinos paços entretidas;
agora no exercício embevecidas
das telas de ouro puro matizadas.

Movei dos lindos rostos a luz pura
de vossos olhos belos,consentindo
que lágrimas derramem de tristura.

E assi,com dor,mais própria,ireis ouvindo
as queixas que derramo da ventura,
que com penas de amor me vai seguindo.

CAMÕES

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 18, 2009 11:39 pm

Passa uma nuvem pelo sol

Passa uma nuvem pelo sol
Passa uma pena por quem vê.
A alma é como um girassol:
Vira-se ao que não está ao pé.

Passou a nuvem;o sol volta.
A alegria girassolou.
Pendão latente de revolta
Que hora maligna te enrolou.

14-8-1933

Fernando Pessoa(cancioneiro)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jun 18, 2009 11:45 pm

Pálida a lua permanece

Pálida,a lua permanece
No céu que o sol vai invadir.
Ah,nada interessante esquece.
Saber,pensar-tudo é existir.

Mas pudesse o meu coração
Saber à tona do que eu sou,
Que existe sempre a sensação
Ainda quando ela acabou...

04-03-1934
Fernando Pessoa(Poesias inéditas)

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Jun 19, 2009 11:21 pm

Deixei de ser aquele que esperava

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

Fernando Pessoa
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jun 20, 2009 12:07 am

Poesias inéditas


Vai leve a sombra
Por sobre a água.
Assim o meu sonho
Na minha mágua.

Como quem dorme
Esqueço o viver.
Despertarei
Ao sol volver

Núvem ou brisa
Sonho ou(..)dada
Faz sentir;passa
E não foi nada

Fernando Pessoa


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jun 21, 2009 8:12 pm

A uma Quissama

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E na manhã fria, nevada
dessas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limpo,
eu vi formoso, correcta
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama.

Mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
Tinha das mulheres lindas
as graças belas, infindas
de encantos, encantos mil.

Nos lábios, postos que escuros,
viam-se-lhe risos puros
em borboletões assomar.

Tinha nos olhos divinos
revérberos cristalinos
e fulgores... de matar!

Radiava-lhe na fronte
— como em límpido horizonte
radia mimosa luz,
da virgem casta a candura
Que sói à formosura
a graça que brota à flux!...
Embora azeitados panos
lhe cobrissem os lácteos pomos
denunciavam os arcamos
de dois torneados gomos...

Cordeiro da Mata (poeta angolano)

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jun 22, 2009 12:34 am

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos,lavrados
Em cristal,límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros,rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses,que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti,meu amor...

Para que,na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontres em cada rua.

ALDA LARA


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 23, 2009 12:17 am

Crianças de Angola
Naquele tempo
as crianças cantavam
na altura dos sonhos
o de mais sagrado

“por esta rua, ó domine
passeou meu bem, ó domine”

Quando as granadas
adormecem o vento
um coro de anjos
dentro da noite
tece o encanto
no tempo sem tempo

“por esta rua, ó domine
passeou meu bem ó domine
orai por mim, ó domine
e por mais alguém, ó dominé”


Por esta rua,
crianças de Angola
brincam de roda
numa perna só


Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: Edições M.E Alternativa, 2001, p. 23.

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jun 23, 2009 1:55 am

Uma amiga

Aqueles que eu amei,não sei que vento
Os dispersou no mundo,que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
passam por mim...mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só,uma só rosa...
Tudo o vento varreu,queimou o gelo!

Tu só foste fiel -tu,como dantes
Indo, volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal...e escarnece-lo

Antero de Quental
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jun 24, 2009 12:30 am



S. João chegou ao Porto
E na Baixa foi passear
Roídinho de desgosto
Foi p΄rá cascata a chorar.


(autor desconhecido)

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