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 Poesia

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Kaluanda
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 04, 2009 6:34 pm

Silêncio, Nostalgia...

Silêncio, nostalgia...
Hora morta, desfolhada,
sem dor, sem alegria,
pelo tempo abandonada.

Luz de Outono, fria, fria...
Hora inútil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia.

Interminável dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?

Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"
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Isabel Branco
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jan 05, 2009 2:53 pm

Cazimar

Venho agradecer embora já com algum tempo de atraso Embarassed , os parabéns pelo meu aniversário. As imensas tarefas destes últimos 2 meses têm-me impossibilitado de ver, (com olhos de ver), Shocked as mensagens quer deste como também de outros Fóruns onde participo, do que me penitencio.
Prometo trazer alguns dos meus poemas a este espaço e se me é permitido abrirei também um fio com o meu cunho e testemunho pessoais.
Quero felicitar-vos pelo trabalho até aqui desenvolvido que como já disse só agora me é possível descobrir. :fruto:
A todos os membros e participantres deste Fórum desejo um óptimo Ano e muita poesia. study

Um beijinho,

Isabel Branco
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MensagemAssunto: Outro Sol,Outra Idade...   Seg Jan 05, 2009 3:08 pm



OUTRO SOL, OUTRA IDADE…



Ao barulhar colorido das missangas
um sol, cor de sangue,
reflecte-se no fruto doce das quitandas.
E o cheiro... aquele cheiro,
como outro não há igual,
que, depois da chuvada,
se desprende dos cafezais
exala-se no ar, em bênção renovada...

Na lânguida preguiça do sisal
enraíza-se a garra, a intensidade...
Ah! Lá longe, uma queimada,
que o velho embondeiro
solitário observa...

O capim em cinzas derrubado
estruma o pasto
e o incómodo maribondo,
fugido do alto enxame,
persegue o gado,
e zumbe, zumbe desnorteado...

À sombra dum ressequido cajueiro
adormecem os oiros da tarde
entre os azuis poentes de fogo
e solta-se um verso de saudade
do que a memória ainda preserva
doutro tempo, doutra idade...



Isabel Branco
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jan 05, 2009 10:07 pm

O que me dói não é

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

(Fernando Pessoa)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jan 06, 2009 9:19 pm

A Flor que és

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perene
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.


Odes De Ricardo Reis
Ricardo Reis
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 07, 2009 5:24 pm

ARLINDO BARBEITOS
(ANGOLA)


Por entre as margens da esperança
/e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram

em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras
/secas
por entre as margens da esperança
/e da morte



(in "Vozes poéticas da lusofonia", Sintra 1999)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 07, 2009 11:26 pm


Aquele vento antes da chuva…
Lembras-te?!...
O vento, o vórtex a dançar
cantando assobio vestido de pó
e depois a chuva, pranto suado dos deuses,
caindo do céu em fúria na tarde quente.
Lembras-te?!...

Ah, aquele vento antes da chuva!...
Abraço quente arrepiado;
vórtex a cantar mistério
e depois… a chuva
para depois o sol espalhar a sorrir
o aroma do amor consumado da chuva
caindo sobre o ventre-fêmea da terra vermelha
exalando telúrico e misterioso momento:
odor ardor perfumado sem verbo
poeta e poema para cantá-lo.


Namibiano Ferreira
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jan 08, 2009 9:38 pm

Põe-me as mãos nos ombros

Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei por quê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.

(Fernando Pessoa)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Jan 09, 2009 11:36 pm

Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 10, 2009 7:32 am

amiga kaluanda
adoro a poesia de florbela espanca
esse poema tem muita energia e intensidade, é um hino ao amor e ao beijo
continue que eu gosto muito
fique bem :fruto 3:
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 10, 2009 11:54 am

Tarde de mais...

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!...

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 10, 2009 9:22 pm

Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 11, 2009 11:27 am

Minha culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 11, 2009 12:48 pm

Tarde no mar

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 11, 2009 7:14 pm

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 11, 2009 9:04 pm

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

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MensagemAssunto: Poesia   Seg Jan 12, 2009 4:01 am

O Autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte,sem beleza e sem brandura
Urdidos pela mâo da desventura,
Pela baça tristeza envenenados;

Bocage.


Kandandos

Toni Lopes...
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jan 12, 2009 1:58 pm

CASTELÃ DA TRISTEZA

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?... A quem? ...
-- E o meu olhar é interrogador --
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada...ninguém vem...

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...

À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho? ... Porque anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Poesia   Seg Jan 12, 2009 3:23 pm

Amiga Kaluanda

Por qualquer razão só saiu uma estrofe dos versos de Bocage.
aí vão as outras.


Vede a luz;não busqueis,desesperados,
no mundo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

Não vos inspire,oh versos,cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente tirania;

Desculpa tendes,se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.



Manuel Maria Barbosa do Bocage..
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Seg Jan 12, 2009 8:53 pm

Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jan 13, 2009 9:50 pm

Descalça vai para a fonte

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jan 13, 2009 10:20 pm

Posto me tem Fortuna em tal estado

Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.

Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,

Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.

E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.

Luís de Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 14, 2009 1:53 pm

O Ciúme

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,
Jaz aos pés do tremendo, estígio nume (1),
O carrancudo, o rábido (2) Ciúme,
Ensanguentadas as corruptas presas.

Traçando o plano de cruéis empresas,
Fervendo em ondas de sulfúreo lume,
Vibra das fauces o letal cardume
De hórridos males, de hórridas tristezas.

Pelas terríveis Fúrias (3) instigado,
Lá sai do Inferno, e para mim se avança
O negro monstro, de áspides (4) toucado.

Olhos em brasa de revés me lança;
Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a meu lado
Ferrando as garras na vipérea (5) trança.

Bocage
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 14, 2009 10:54 pm

Nostalgia

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jan 15, 2009 12:42 am

Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
--- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Poesia   Qui Jan 15, 2009 1:03 am

Retrato próprio

Magro,de olhos azuis,carão moreno,
Bem servido de pés,meão de altura,
Triste de Facha,o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;


Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;


Devoto incensador de mil deidades
(Digo,de moças mil)num só momento,
E sómente no altar amando frades,


Eis Bocage,em que luz algum talento;
Sairam dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Manoel Maria De Barbosa Du Bocage
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Hoje à(s) 2:33 pm

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