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 Poesia

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lopes
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MensagemAssunto: Poesia   Qui Jan 15, 2009 1:03 am

Retrato próprio

Magro,de olhos azuis,carão moreno,
Bem servido de pés,meão de altura,
Triste de Facha,o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;


Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;


Devoto incensador de mil deidades
(Digo,de moças mil)num só momento,
E sómente no altar amando frades,


Eis Bocage,em que luz algum talento;
Sairam dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Manoel Maria De Barbosa Du Bocage
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jan 15, 2009 11:43 am

A Camões, comparando com os dele os seus próprios infortúnios

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Lubíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.

Bocage
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jan 15, 2009 10:06 pm

Canção grata

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: praias-ilha do mussulo-Luanda   Qui Jan 15, 2009 11:09 pm

Entre as agonias do seu trânsito final


Já Bocage não sou!...a cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei!O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!...Tivera algum merecimento,
Se um raio de razão seguisse,pura!

Eu me arrependo;a língua quási fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria;


Outro Aretino fui...A santidade
Manchei...Oh!Se me creste,gente impia,
Rasga meus versos,crê na Eternidade!

Manoel Maria de Barbosa du Bocage
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Jan 16, 2009 9:23 pm

Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Jan 16, 2009 11:14 pm

Noite

Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tunguruluas pelos ares!...

Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...

Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das historias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...

E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...

Por isso as noites são tristes...
endoidadas, tenebrosas langorosas,
mas tristes...como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...,
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...

Alda Lara
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 18, 2009 12:31 pm



Ronda

Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
Na dança dos meses
meus olhos choraram

Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!

Na dança dos meses
meus olhos cansaram...
Na dança do tempo,
quem não se cansou?!

Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...
Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?

(Alda Lara)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 18, 2009 10:41 pm

Regresso

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...

Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...

Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...

(Alda Lara)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Ter Jan 20, 2009 3:21 pm

O ledo passarinho

O ledo passarinho, que gorjeia
D'alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente , que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia :

O Sol, que o céu diáfano passeia ,
A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da aurora alegre e pura,
A rosa, que entre os zéfiros ondeia ;

A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das glorias que consigo,
A deusa das paixões, e de Cítera :

Quanto digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera,
Nada se pode comparar contigo.

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 21, 2009 4:15 pm

Angola, fogo negro

Um amor entre um português e uma angolana
ou... entre Portugal e Angola

Meu acto de fé…
No kapussoka: a travessia.
Meu destino: muxima ué.
Nunca eu ouvia
A canção da kianda ao anoitecer
(Mambos por resolver),
Até me arrancares
Do peito esse maboque
E me curares
Com o teu toque.
Meu milongo ardente…
Minha boca fica aberta, abuamada.
Tuas pálpebras acenam, lentamente.
Boca aberta… boca calada,
Pois teus olhos falam mais alto.
Meu sobressalto…
Ondalu negro. Veludo,
Semba, magia esquecida.
Porque hoje me deixas mudo
Dás-me a voz ontem perdida.
Minha vida…
Preta… Ngueta… Nosso dilema.
Que as barreiras se desfaçam
Quando as nossas línguas se abraçam
Num beijo... ou num poema.

(JM Almeida)

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 21, 2009 7:23 pm

CANTARES DOS BÚZIOS


Ai ondas do mar, ai ondas,
ó jardins das alvas flores,
sobre vós, ondas, ai ondas,
suspiram os meus amores.

No fundo dos búzios canta
o mar que chora a cantar
ó mar que choras cantando,
eu canto e estou a chorar!

Ai ondas do mar, ai ondas,
eu bem vos quero lembrar:
«a minha alma é só de Deus
e o meu corpo da água do mar!»




Afonso Lopes Vieira
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 21, 2009 10:19 pm

Tarde no mar

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 21, 2009 11:27 pm

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 21, 2009 11:41 pm

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qua Jan 21, 2009 11:51 pm

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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jan 22, 2009 12:28 pm

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Qui Jan 22, 2009 11:56 pm

Alma, Sonho, Poesia

Entrei na vida
com armas de vencida;
Alma, Sonho, Poesia.
Quando eu cantava
o mundo ria
mas nada me importava:
cantava.
Depois, um dia,
o mundo atirou pedras ao meu canto
e a minha alma rasgou-se.
Que seria?
Medo, espanto,
revolta ou simplesmente dor?
Fosse o que fosse,
o orgulho foi maior.
Com dez punhais nas unhas afiadas
nos olhos azuis duas espadas,
eu nunca mais seria, nunca mais,
a que entrara na vida
com armas de vencida.
Agora o meu querer era mais fundo:
de um lado, eu, do outro, o mundo.
E começou a luta desigual
do tigre e da gazela.

A vencida foi ela.
Mas que louros colheu dessa vitória
o mundo cego e bruto?
O sangue dos Poetas? Triste glória...
Cinza de sonhos mortos? Magro fruto...
Oh, não, punhais e espadas!
Eu só quero cantar! Não quero ossadas
nem, sob os pés, um chão de campas rasas.
Eu só quero cantar! Só quero as minhas asas
e a minha melodia:
Alma, Sonho, Poesia...
Alma, Sonho, Poesia...

em “Exílio”, 1952.

(Fernanda de Castro)
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sex Jan 23, 2009 9:42 pm

O Encoberto

Cavaleiro do Sonho e do Desejo,
guarda no santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.

Sonho de além e de glória,
há tanto, há tanto
o sonha um Povo inteiro!
Maravilha e encanto
da nossa história:
- oh Manhã de Nevoeiro...

Oh manhã misteriosa
que alvoreces em nós teu rompante claror,
teu messiânico alvor,
manhã de além, alva saudosa,
- tu és nossa força que não passa,
teu sonho em nós revive ao longe e ao perto,
manhã sem dia, oh manhã de Graça,
em que há de vir o Encoberto...

Místico Paladino iluminado,
que ao areal arrastou nossa alma em flor
e jogou a sorrir nosso destino e sorte,
ele era vivo antes de Desejado,
ele era vivo em nosso sonho e amor,
- e nunca o levou a morte!

Ele é vivo e é eterno! Horas ansiadas
em que o sinto, no meu sangue, em mim...
Ele vive nas Ilhas Encantadas
da nossa alma sem fim...

E, oh maravilha!
em toda a hora do perigo e do temor,
o Encoberto volta da sua Ilha,
e salva-nos, e salva-nos, Senhor!...

E a Esperança imortal,
surda palpita na manhã rompente!
Cerra-se a névoa alucinadamente,
Portugal boia no nevoeiro...

E o Cavaleiro
do Sonho e do Desejo
guarda no Santo Graal,
com a nossa Saudade e o nosso Beijo,
- o sangue de Portugal.

(In Ilhas de Bruma)


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 24, 2009 1:09 am

NOITE DE SAUDADE

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra , que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!...Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que eu tenho!!


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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 24, 2009 1:24 pm

Leva-me longe, meu suspiro fundo

Leva-me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.

Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.

Aí ... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar ?

É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.

Fernando Pessoa
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 24, 2009 4:17 pm

Dentre as sombras do coração
Levanta-se o véu da tristeza
Por entre os escombros erróneos da mala vida
Que vitupério sangrento ,
Este entre o ideal
E o ponto e virgula
Que sacrilégio voar entre os monstros marinhos
Que me dilaceram a aura
E me torcem a alma
E me elevam a loucura
Para crucificar os anjos

Oh "mare" filosófico sacramento do meu desespero...
Por onde andas bela donzela
Dos meus fatídicos sonhos?
Oh sede dos teus beijos
Sede enorme de te abraçar
Sede transfigurada das nocturnas
Oh violentas tormentas
Calmos sonetos de Chopin
Oh fantasmas insolentes
Brutos ladrões
Incessantes e cambaleantes gatunos na minha roda
Meus furões e cães de latir
Meus dedos apontados para o Universo
... Mas não estás!!!!

Paulo Martins


Última edição por Paulobocas em Sab Jan 24, 2009 4:21 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Morena ao sol!   Sab Jan 24, 2009 4:21 pm

Nos montes deleito o olhar
Na boca a saliva busca o sabor
O tacto toca o bronzeado
O sol aquece a alma
Teu nome ecoa no areal
Tua beleza incendeia o maralhal...
E, assim prostrado de frente para o amor
Não te alcanço neste salto
Nem no meu imaginar
Mas acredita que me fizeste sonhar!!!

Paulo Martins
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Sab Jan 24, 2009 4:44 pm

Olhando a Baía do Lobito
( Tamariz)


Perco-me de ti
Nos instintos do dia
Onde te trago amorfa
No meu acordar "roncado".

Tenho as náuseas
De um vagabundo,
Sou um bêbado aos trambolhões
Que a tua ausência é uma chaminé
Em cinzas
E negro limpo a fuligem
Por te ter em brasas
Tão loucamente incendiada!

Sinto-me prisioneiro...
Barricado no infinito do cerebelo
Onde neurónios jogam as escondidas...
Viajando trinta e dois dias...
Não sei se prá Sul
Ou para Norte...
Mas é setentrional...!

Rego a fúria dos ventos
Que me cantam noitadas
Nas alegrias do Carnaval
Sou um palhaço...
Homem-disfarce...
Pinto a cara dou cambalhotas
Sou um folião
Homem-repimpão...
Boca de atiradiça
Tão fera, tão bruta
Tão sem ti...

Perco-me de ti na distância
Já não conto as horas
Já não conto as horas
Perco-me no tempo
Nos dias
Nas semanas
Perco-me nos meses
Nos anos
Na eternidade...

Oh civitate
Amor do meu destino
Cidade em fuga
Meus desatinos
Hermosa choupana
Tão aconchegante nos meus dedos
Tão cacimbada da guerra
Tão ardida da fome

Poesia eu te declaro
Por entre as ondas da Baía
Que nos tempos de Março
Surgem em brutas calemas
O mar é revolto
E como Moisés conduzindo o povo
Nós povo também somos conduzidos
Pelo êxodo
Pela Pátria
Pela glória
Pela insanidade
E pela vaidade daqueles
Que tristes me temem
Onde as lágrimas deixo caídas
Nas tuas águas: ó Atlântico
Que se misturam nas águas plácidas
Do outro lado...

... És límpida
Na ausência
... Meu banho matinal
Meu coração "teclante"
Minha alma varina
Meu voo de pássaro caído
Minha cigana!

Sou a bala de canhão
O estrondo oco da pólvora
O centro é a roda do marco
Que a "moucos" é só outra diferente cor
De acertar
Ou não te acertar
Não te inventar
E não preferir.

... Perco-me de ti
Nos dias que já são meses
Nos dias que não se cansam
De ser dias.

Perco-me de ti
Só por me perder
Porque...
Já não sei mais nada fazer.

Ah que saudades
... Fecho os olhos e só existe o teu encanto
Abro os olhos e só existe a tua sombra
Ah que saudades
... Só me resta
Morrer em ti.

Perco-me de ti
Porque sempre me perdi
No ano de mil novecentos e noventa e cinco!!

Quando te voltarei
A encontrar?!!

Paulo Martins
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 25, 2009 12:42 pm

Onde acharei lugar tão apartado

Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.

Luís de Camões
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 25, 2009 1:41 pm

Poema da lua!


ah!

minha açucena

que os rios corram a tua beira

por entre as soias do teus vestido

que nos madrigais te encontro a solta

e quem não te desejar bela

que me tenha na espada morto

pois bela só te conheço a ti

luar do meu cantar

meu canto de luar!!


Paulo Martins
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MensagemAssunto: Re: Poesia   Dom Jan 25, 2009 4:31 pm

Castigo pro comboio malandro

Passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem

o comboio malandro
passa

Nas janelas muita gente
ai bô viaje
adeujo homéé
n'ganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda pra vender

hii hii hii
aquele vagon de grades tem bois
muú muú muú

tem outro
igual como este dos bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

Tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta como é criança
"Mulonde iá késsua uádibalé
uádibalé uádibalé..."
Esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

Comboio malandro
O fogo que sai no corpo dele
Vai no capim e queima
Vai nas casas dos pretos e queima
Esse comboio malandro
Já queimou o meu milho

Se na lavra do milho tem pacacas
Eu faço armadilhas no chão,
Se na lavra tem kiombos
Eu tiro a espingarda de kimbundo
E mato neles
Mas se vai lá fogo do malandro
- Deixa!-
Ué ué ué
Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Só fica fumo,
Muito fumo mesmo.

Mas espera só
Quando esse comboio malandro descarrilar
E os brancos chamar os pretos pra empurrar
Eu vou
Mas não empurro
- Nem com chicote -
Finjo só que faço forca
Aka!

Comboio malandro
Você vai ver só o castigo
Vai dormir mesmo no meio do caminho.

(Poemas)
António Jacinto
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